terça-feira, 30 de outubro de 2018

A serra da minha esquina

              
               Num pequeno vilarejo lá das terras das Minas Gerais vivia Doralice. Uma menina jovem, mas que carregava em sua mochila um punhado de sonhos e poesia. O pai de Doralice trabalhava de sol a sol. Acordava as seis e chegava as oito, porque dizia ele: "a vida é dura demais para se viver na rede". Já a mãe da moça fazia de um tudo. Ajudava o padre na capela, plantava e vendia flores, limpava a casa e bordava quase sempre uma bela toalha de mesa. 
Eram felizes mesmo vivendo na simplicidade. 
             Doralice foi crescendo naquela casa cuja cerca eram as montanhas que formavam o vale. Pensava muito sobre a vida. Um de seus passa-tempos favoritos era formular teorias. Gostava de ler livros e ampliar sua imaginação. Na hora do almoço quando a família batia em sincronia os talheres, seus pais reclamavam da vida alheia, ela por sua vez falava do que seus olhos viam de mais legal durante a manhã. Cá entre nós, a menina tinha um bicho que a picava sem parar. Aquele mal  "quero logo, quero agora" que a fazia preferir manga verde a manga madura só para ela não precisar esperar. 
            Enquanto Doralice crescia seu pai repetia o mesmo ditado " Doralice, amor não enche barriga" sempre que a pequena dizia que queria ser astronauta, bióloga ou professora. Umas dessas profissões que ninguém da muita moeda, mas deveria! Doralice argumentava que a vida passa rápido demais para gente não procurar um amor,  construir uma casa branca com persianas azuis e ter filhos para chamar de seus e pedir que tragam água. O pai e a mãe discordavam. Já tinham tudo planejado para Doralice. "Ai dela se fizer outra escolha... Haverão consequências..." dizia seu pai com veemência. 
Dava medo! 
                Doralice cresceu. Tentava lembrar a si mesma que passarinho não tem asa a toa. Entretanto a voz do medo a lembrava que a moeda que move o mundo paralisa sonhos. "Não é justo a gente ter que escolher entre o que a gente ama e o que precisa ser feito" Doralice tem razão. 
              O mundo anda injusto demais. Sem saber ao certo o que fazer a agora mulher Doralice ainda se sentia perdida. As montanhas que eram outrora sua proteção mais tinha cara de prisão. Moeda, moeda, moeda. Mais do que mover o mundo tu tens cegado o coração.

Autora: Emma Gerhardt 
@emmagerhardtt 

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Os melhores dons


Alguns nascem com a afinação de anjos, outros ensinam como ninguém. Tem gente que nasce com o anseio de ajudar, alguns em aconselhar, outros têm uma belíssima oratória, uns tocam ou dançam ou cozinham, talentos enfim. 

Nós somos capazes de adquirir vários conhecimentos na vida, mas existe uma semente no nosso coração chamado dom, uma sementinha que deve ser regada, podada, cuidada a fim de crescer, florescer e gerar frutos. 

Busquem os melhores dons! – ele disse após listar vários deles- Busquem os melhores. 

Mas pensei “como saber qual o melhor? Qual parâmetro devo usar para escolher o meu?”

Dom deve ser útil. Do que vale o pintor se não tem gente que usufrua de suas cores? Ou um poeta que não tem com quem partilhar seus poemas?

Onde dom é semente, água é amor. A escolha do seu dom deve ser feita com zelo e regada com o caminho excelente que não se vangloria, nem se ensoberbece, que é paciente e bom, que não inveja, que não é lar do rancor, que crê, que espera, que suporta. Amor é o ator que diverte uma plateia sem esperar os aplausos. 

O mundo gira melhor quando os 7,5 bilhões de faróis se identificam como luz e assumem a responsabilidade de exercer seu dom de brilhar - amar.

Nós não apenas colhemos o que plantamos, mas também comemos. Por isso partilhe e compartilhe seus bons frutos e satisfaça a fome de uma geração que carece de abraço, respeito, esperança, fé, gentileza, e, principalmente, amor. 

Abasteça seu regador, Catarina, regue a boa semente. 

Com amor, e pelo Amor. 
Joicy Vakiuti

quarta-feira, 7 de março de 2018

O homem das bochechas pitanga

                                Foto: Annie Spratt

Conta-se que há mil anos em uma dessas terras distantes a qual ninguém mais se lembra do rei e nem das vistosas cenouras produzidas aos fundos do castelo, um homem com bochechas vermelhas como pitanga chorava a beira do caminho. As pessoas que por ali passavam se indagavam caladas ou a pequenos sussurros: será dor de luto ou dor de dente? Porém ninguém se aproximava, seja dito de passagem, nem precisava já que sua tristeza podia ser vista a milhas. Os dias passaram, a contar 130 dos 365 que o ano possui, todos os dias no mesmo horário chorava a orla do caminho.

Naquela época os homens vendiam, as mulheres cuidavam e as crianças se apaixonavam, logo cedo sim, para não perder a paixão pela vida. Amavam os pais, os pardais, as flores dos quintais, a vida simples como ela é, a tarefa de casa era nunca se esquecer do amor que há no mundo, infelizmente ao crescer nem todos faziam a tarefa de casa. 

 “O choro pode durar uma noite mas a alegria vem pela manhã” foi o que a pequena leu no calendário pendurado na parede da oficina do carpinteiro, logo lembrou do homem das bochechas pitanga e se perguntou quantos dias levariam a noite do moço.

A mãe da menina naquele dia pediu para que ela fosse trocar alguns brócolis por cenouras com o jardineiro do castelo. Catarina, colocou seu chapéu, calçou suas sandálias e pegou sua cesta. A menina saiu, andando e saltitando e sorrindo aos quatro ventos, passou pelo campo de flores e decorou seu chapéu com várias cores. Seguindo passou pelo lugar onde sempre via o homem das bochechas pitanga, só que dessa vez ele não estava lá, será que havia morrido de tristeza? Catarina ficou triste com a hipótese que criara.

Ao chegar no castelo e olhar por toda horta direcionou-se ao jardineiro que agora tinha um novo ajudante, seu nome era Pompeu, ele se parecia muito com o homem das bochechas pitanga, a diferença era que sorria e assobiava enquanto colocava sementes de girassol para alimentar os passarinhos que ali passeavam às manhãs. Catarina ficou atônita, mas com um sentimento de curiosidade feliz no coração. Se inclinou a sussurrar ao jardineiro:

- Aquele é o homem que a beira do caminho ficava a chorar?

- Por que não pergunta a ele? – O jardineiro respondeu.

Acanhada Catarina se aproximou de Pompeu e percebeu que os olhos que em lágrimas se derramavam agora brilhavam como estrelas da noite mais escura.

- Moço, por que o senhor chorava?

Com uma pausa Pompeu a olhou e respondeu:

- Porque meu coração chovia e se alagava todo dia, o ladrão roubou minha alegria.

- E agora? Seu coração não chove mais? Você pegou o que foi roubado de volta?

- Não exatamente, pequena menina, a minha alegria era coisa que a gente pegava com a mão, que o vento levava, que o gafanhoto comia, meus conceitos e pensamentos eram egoístas e pó. De manhã o dia é bem mais bonito; com os olhos sem lágrimas pude enxergar que o céu - depois de tanto tempo - ainda continuou com o brilho azul. Que nenhuma nuvem negra faz casa em cima da nossa cabeça, mas que o vento também a leva. Descobri que alegria de verdade o tempo não pode fragmentar. Que a esperança pode ser encontrada nos olhos daquele que a leva mesmo em dias ruins. Que Deus não mora longe, que Ele também anda descalço e desenha na terra com um graveto, que Ele queria enxugar minhas lágrimas o tempo todo e só eu não percebi, que o meu inimigo era meu próprio eu que se não queria enxergar o Amor que eu recusava a aceitar.

- Mas, seu Pompeu, qual é a sua alegria agora?

Com um sorriso de orelha a orelha, Pompeu olhou ao céu e respondeu:

- Saber que minha casa é o abraço de Deus.

Catarina o abraçou e agradeceu pela lição que sabia que levaria em cada um dos dias enquanto morasse nessa terra.

Na hora de dormir, pediu benção aos pais, foi pra sua cama, ajoelhou e agradeceu por entender que feliz mesmo é aquele que mora no abraço de Deus.

Vilhena, 07 de março, quarta-feira, 2018.
Joicy Vakiuti



sexta-feira, 2 de junho de 2017

Não é sobre quem eu sou



Não é sobre quem eu sou, mas sobre quem Ele é. Porque só descobri quem eu era quando entendi o que eu sou para Ele. Descobri que valor não é a moeda que se guarda no bolso, mas aquela que compra o pão para alimentar uma multidão. Que amor não se subtrai. Se multiplica. Se divide sem olhar a quem. Aceitei que a perfeição não vem de mim, e que por vezes não farei o bem que eu quero, mas o mal que não quero acabarei por fazer. Miserável homem que sou!

Descobri que por mais que eu caia no chão a sua forte mão, gentilmente, irá me puxar de volta. Que eu sou aquela menininha de vestido alvo a dançar soprando as bolhas de sabão imaginando quantas cores elas podiam mostrar da infinidade de tons da paleta de Deus. Que sonhos precisam voar mais alto que as bolhas e serem mais coloridos que o arco do firmamento. E que eu, com valentia, os conquistaria se eu fosse maior que os medos que um dia alguém me ofereceu.

Descobri que a esperança não poderá me faltar. Que fé é confiar. Mas que o amor - ah! O amor! - Desse eu deverei sempre transbordar.

E mesmo que um dia a memória me falte...

E mesmo que eu me distancie de quem eu sou e esqueça-me da fé, da esperança e do amor, Ele continuará sendo o que sempre foi: O que Ele é. 

Joicy Vakiuti

terça-feira, 23 de maio de 2017

As rodinhas


- Mãe, quero tirar as rodinhas!

    Aqui no interior sempre foi barro mesmo, quando caía era na lama e cascalho, voltava para casa sempre com o joelho ralado. Não precisava ir a venda da esquina para comprar frutinhas, as árvores moravam no nosso quintal. Eu tinha de estimação um pé de algodão (que colhia sempre que precisava plantar meus feijões depois que minha mãe os escolhia).

    Em frente de casa os meninos soltavam pipa e as meninas faziam fila para brincar nas amarelinhas riscadas com um graveto na terra. Eu, sentada no banco de madeira, com várias cores os desenhava sem pressa. Todo mundo buscava o céu.
   
    Os meninos fazem vestibulares, prestam concursos. As meninas também. Todos buscam a terra. Eu continuo desenhando e caindo sem as rodinhas da minha bicicleta. Levo a tranquilidade na garupa e a felicidade na cestinha, olhando o mundo no binóculo e ilustrando descobertas.

Não pense você que tirar as rodinhas é para quem já sabe correr e fazer manobras com aquela bicicleta azul de cestinha. Tirar as rodinhas é para poucos, porque sonhar mesmo é só para quem tem essa tal de coragem.

Joicy Vakiuti

terça-feira, 8 de novembro de 2016

PROCURADO: Luzes que procuro seguir


Vou confessar a ti, essa lista já existe. Por favor, não desista de mim. A segunda coisa que preciso confessar-te é a minha falta de memória associada à capacidade de perca de coisas pertencentes a mim - ou não -. O fato é: perdi a lista. Não encontrei-a na internet e nem em nenhum dos meus blocos de anotação. Sobre ela, das únicas coisas que lembro: 1) Seu nome  "Luzes que procuro seguir"; 2) Era sempre guardada em meus lembretes, num lugar que pudesse ser visualizada todos os dias, talvez tenha falhado um pouco; 3) Fora escrita por um homem, ou não, esta é, absolutamente, apenas uma impressão. 

Espero que não seja fruto dos meus sonhos, no entanto se for, tudo bem. 

Além disso, lembro que essas tais luzes eram em um número X, como não sei que número equivale a X não vou me conter em criá-las ou procurá-las. Então, conforme for-las encontrando compartilho contigo, caso alguém, além de mim, também as procure. E você, se encontrá-las, por favor, compartilhe comigo.
AS PRIMEIRAS TRÊS
1 - Sorria, sempre, ao agradecer.
2 - Aplique seu coração ao seu caminho.
3 - Quem se apressa ao beber um bom chá queima a língua. Não seja esse alguém.

As luzes estão por todo lugar. É verdade, na claridade é mais difícil percebê-las, porém quando encontrá-las guarde-as bem. As vezes Deus manda um grande farol e com ele muda toda a direção da rota, outras vezes manda vaga-lumes, não os menospreze.
Como somos todos caçadores de luzes iniciantes aí vão algumas dicas: Olhe sempre na caixa amarela que recebe as cartas, nas etiquetas das roupas velhas, no troco pão, no tronco da árvore, nas costas da moça que espera pela senha 79 no guichê de sugestões e reclamações sentada na quarta cadeira bordô da terceira fileira do banco, no jornal policial da cidade ou na última folha do seu caderno da sexta série. Pode parecer ridículo, porém não tenha medo de parecer. 

   Joicy Vakiuti 



sábado, 23 de julho de 2016

Ternura


"Quando um pai se senta para brincar com o filho. Quando o Rei se curva para beijar o servo Quando o autor se põe no próprio livro, só pra morrer ali e por alguém mudar o fim. É disso que eu falo quando canto e quando escrevo sobre o amor. É nisso que eu penso quando vejo e quando sinto esse amor." 
(É ISSO / ESTEVÃO QUEIROGA)

A ternura não usa terno, usa vestido florido e chinelo de dedo. Mania boba essa nossa de achar que todo perfume gostoso vem em frasco de cristal. Perfume bom tem cheiro de manteiga no pão quentinho, cheiro de terra molhada depois de dias sem chover, cheiro de abraço de saudade depois de um dia sem se ver.  A Ternura é graciosa, linda da cabeça ao pé, principalmente do lado de dentro onde o coração tem um belo chalé. A Ternura não se rotula como A grande afeição, ela apenas é.

O ser mais terno que eu conheço, tem o universo inteiro na palma da mão, porém sua casa preferida é um perfumado coração. O Terno na verdade não o usa, não precisa de aparência já que é pura essência. Tem por adjetivo mansidão: a suavidade dos fortes. Ah! Como Ele é! A proposito, além de ser, Ele era e ainda há de vir. E como não esperar? O Príncipe da paz fez a mesma em mim habitar enquanto aguardo ansiosa a vinda do Eterno chegar. E até que Ele venha, na minha garupa a tranquilidade vou levar. 

Foi Ele quem ensinou a ternura a amar. Catarina querida, amar sem receber ou trocar, nem por merecer. Apenas amar, porque foi assim que Ele a amou.


Com amor e pelo Amor,
                                                                                         Joicy Vakiuti 
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